Será de parto essa dor? Ou simplesmente agonia?

Frequentemente tenho recebido convites para falar sobre um projeto chamado Lixo Eletrônico Guarapuava, em universidades, conferências e grupos de interesse. Costumo iniciar minha fala, dizendo não sou ambientalista; não sou da área tecnológica; tampouco especialista no assunto; não represento nenhum partido político; nem sou de alguma ONG. Tudo isso, precedido de um… sou uma publicitária. Para gostos e desgostos de quem estiver ouvindo.
Para gostos e desgostos de você amigo, que esta dedicando seu tempo a essa leitura, esse não é também um post sobre o projeto.
É um desabafo.
Após um longo período de ' crise existencial profissional', por perceber que estava envolvida numa profissão que estimula um dos grandes males da atualidade (o consumo desenfreado, motivado e induzido sim, pela publicidade), percebi que dependia somente de mim - e logicamente, de companheiros de angústias e jornada - mudar essa situação. Pelo menos a minha própria situação. Como aquela auto-enganação que precisamos as vezes para ficar com a consciência mais limpa.
Percebi também que naquele momento, algo novo na comunicação estava começando. As pessoas iniciando uma mobilização de práticas, influenciando em quais empresas comprar, e que as que tinham melhores práticas sociais e ambientais, poderiam ser decisivas na escolha.
E percebi que muitas dessas empresas, o faziam simplesmente para continuar na preferência, e estimular assim, ainda mais o consumo com aquele cliente feliz, de consciência tranqüila. Ciclos de auto-enganadores.
Como queremos pregar sustentabiliade, se nossas práticas pessoais não o são? Somos seres (desculpem-me os que não se enquadram aqui, mas falo da maioria), que não buscam o equilíbrio pessoal. Sustentabilidade pessoal é o primeiro passo. Se nos auto destruímos, a cada pratica errada que sabemos que afeta nossa vida pessoal… como pensar isso num âmbito mais amplo?
E continuamos…
E ficamos perplexos e indignados com o governo, que nada faz, sabendo que mês de janeiro haverá enchentes e deslizamentos. Não fazem. E não fazemos… porque não só em janeiro, tragédias acontecem.
E tragédias acontecem em locais onde se tenta prevenir também.
E ficamos perplexos, choramos ao ver imagens de crianças soterradas, cachorros sem dono, famílias inteiras embaixo de lama…
Como querer a harmonia da natureza se corremos em busca de nossa própria destruição?
Nos indignamos quando vemos motoristas atropelando ciclistas que lutam por um mundo melhor?
Pois amigos, estamos todos motorizados, arrastando milhares de vidas através de nossos egoísmos e comodismo.
Estar junto com outros jovens na idealização de um projeto que busca fazer algo não serve nem ao menos para amenizar um pouco a minha consciência de estar fazendo algo.
Mas me serve de alicerce que me leva a ver que num mundo onde reclamamos que ninguém faz nada, há um poder de fazer algo em potencial. E isso pode gritar aos ouvidos de muitos, sussurrar ao ouvido de outros.
E motivar… e se não e o suficiente para nos fazer pedalar, que sirva para pisar no freio quando vermos ciclistas em nossa frente.
Nossa mãe terra, Senhor, geme de dor noite e dia. Será de parto essa dor? Ou simplesmente agonia?
Vai depender só de nós. Vai depender só de nós.
Deus tenha piedade de nós.



Comentários
Excelente!
Mas, meu coração ainda não bate de todo tranquilo... Pois me dói ver certas ações, atitudes e, especialmente, estímulos a um desenvolvimento burro e egoísta.
Enfim, compartilho teus conflitos.
Sou da comunicação e da área ambiental e sei da dificuldade e necessidade de tratar um tema que pode cair no alarmismo ou na pura lógica capitalista...Acho que pensar e debatar alternativas para um consumo inteligente é sinal de que já estamos fartos do modelo econômico atual em que vivemos. Parabéns pela temática!